segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Empresa é condenada por fotógrafo faltar de casamento

Uma doméstica e um tecelão de Juiz de Fora, Minas Gerais, vão receber uma indenização de R$ 4 mil de um estúdio de fotografia que foi contratado para registrar a cerimônia de casamento do casal, mas acabou não executando o serviço. O casal pagou R$ 280 em cinco parcelas cerca de um ano antes da cerimônia de casamento, em 21 de janeiro de 2006. Porém, nenhum fotografo apareceu para registrar o acontecimento. A condenação foi confirmada hoje pelo Tribunal de Justiça mineiro.

O estúdio de fotografia havia sido contratado para fazer a filmagem e fotografar o casamento do casal e funcionava no mesmo prédio onde o vestido da noiva foi alugado. Segundo os autos do processo os dois viviam juntos há 12 anos e já tinham um filho quando conseguiram juntar dinheiro para realizar a cerimônia de casamento. A noiva alegou ter entrado na igreja atônita, sentindo-se ofendida, frustrada, envergonhada e triste, porque o momento sonhado há mais de 10 anos "havia-se tornado um pesadelo".

De acordo com o desembargador Pereira da Silva, relator do processo, o descumprimento do contrato com o estúdio gerou constrangimento ao casal. "A falta injustificada do fotógrafo contratado à cerimônia de casamento, de forma indubitável, gerou aborrecimento e constrangimento aos noivos, ao perceberem que aquele importante momento de suas vidas não seria documentado", escreveu o magistrado em seu parecer.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Terceira edição do deVERcidade começa na próxima terça (27/11)

Durante seis dias os olhares de mais de 60 fotógrafos e artistas visuais estarão expostos das 17h a meia-noite no galpão do Mercado dos Pinhões em Fortaleza-CE

Tem início nesta terça-feira (27), a terceira edição do projeto "DEVERCIDADE", no entorno do Mercado dos Pinhões. Mais que uma exposição de fotografias e artes visuais, "DEVERCIDADE - uma cidade em cada olhar" marcará este ano a formação da Rede Norte/Nordeste de Fotografia, com encontro que contará com a participação de representantes de quase todos os estados das duas regiões. A proposta é que cada representante exponha o desenvolvimento da fotografia em seu estado e a partir daí seja criada uma rede de intercâmbio.

A abertura do DEVERCIDADE será as 20h de terça-feira, 27, no Mercado dos Pinhões, com a exibição do curta "Câmera Viajante", de Joe Pimentel e Tiago Santana, que contará com a presença dos seis fotógrafos populares do Cariri e de Fortaleza que participam do filme que assistirão pela primeira vez. Em seguida, o galpão será aberto para visitação .

Exposição
Durante seis dias os olhares de mais de 60 fotógrafos e artistas visuais estarão expostos das 17h a meia-noite no galpão. São fotografias, projeções e instalações que mostram as diferentes formas de ver a cidade. Entre os participantes, nomes conceituados como Celso Oliveira, José Guedes, Zé Tarcísio e Tiago Santana, e novos fotógrafos, como os integrantes dos grupos Gota de Luz, criado a partir das oficinas do DEVERCIDADE em 2006, e Clica Maravilha, que desenvolve trabalho de inclusão visual.

Encontro
De quarta-feira (28), a sábado (1º) acontecerá o Encontro da Rede Norte/Nordeste de Fotografia. Serão dois painéis por dia no Auditório do galpão, o primeiro das 16h às 18h e o segundo das 19h às 21h - com dois convidados em cada, seguidos de debate aberto ao público. Em outro momento, os convidados formarão grupos fechados de trabalho para estabelecer as metas da Rede e uma agenda comum. No domingo (02), data do encerramento do DEVERCIDADE, os participantes da Rede vão mostrar uma síntese do resultado dos trabalhos, com os passos que serão seguidos a partir do Encontro.

Oficinas
Também de quarta a sábado, das 14h às 18h, acontecerão duas oficinas de fotografia: Fosfoto - maquinas de fotografia artesanal feita de caixa de fósforo - (na sede do IFOTO, próximo ao galpão), ministrada por Maíra Gutierres e Zaneir Gonçalves, do grupo Gota de Luz; e Foto na Lata, ministrada no Mercado dos Pinhões por Estácio Júnior, do grupo Fortaleza na Lata. As duas oficinas são gratuitas e as inscrições devem ser feitas na sede do IFOTO. São 20 vagas cada, com idade mínima de 14 anos.

Vivência para Multiplicadores
De 28 a 30, das 9h às 12h, o fotógrafo Miguel Chikaoka terá uma vivência com multiplicadores. Paulista radicado no Pará, Chikaoka é idealizador da Fotoativa, um núcleo de referência na formação da maioria dos fotógrafos paraenses contemporâneos. Suas obras e realizações como educador ganharam projeção no Brasil e no Exterior. Possui obras em acervos de museus em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Nova York e Paris. A vivência será um reencontro com multiplicadores que fizeram oficina de fotografia artesanal com ele na edição de 2006 e o contato com pessoas que começaram a lidar com esta técnica a partir daí, como os integrantes dos coletivos Gota de Luz, Fortaleza na Lata e Clica Maravilha, entre outros convidados. Na sexta-feira o grupo vai pensar ações que podem ser feitas coletivamente. Será uma grande conversa sobre inclusão visual em Fortaleza. A vivência será realizada no Auditório do Galpão da Fotografia.

Lançamentos
Livros de fotografia serão lançados na sexta-feira (30) às 22h. Entre os quais, Na Palma do Olho, de Carlinhos Alcântara, primeiro livro da Coleção Local Foto. O livro resgata parte da obra do fotógrafo tetraplégico Luiz Carlos Souza Alcântara, carioca falecido em 2004, que passou parte de seus quase 50 anos fotografando em uma cadeira de rodas. O livro é resultado de um ensaio produzido quase inteiramente no Conjunto Palmeiras. Na mesma noite também serão lançados livros de Celso Oliveira, Ricardo Damito, Aristides Alves (BA) e Ângela Magalhães (RJ).

Curtas e shows no Pátio do DEVERCIDADE
Uma novidade no DEVERCIDADE este ano é o pátio do DEVERCIDADE, um espaço de convivência com serviço da Mercearia dos Pinhões. De lá, os visitantes poderão conferir os curtas que serão exibidos de quarta a domingo, das 21h às 22h: "Câmera Viajantes" (Joe Pimentel e Tiago Santana), "Retrato Pintado" (Joe Pimentel) e "Não deu Tempo" (Tibico Brasil).

Shows
Uma programação de shows no galpão também marcará o DEVERCIDADE, sempre às 22h. Na quarta (28) apresenta-se o Grupo Vocal Cinco em Ponto. Na quinta (29), apresentam-se Paula Tesser e Valdo Aderaldo, na sexta feira, show Radioativa, com o músico Alex Costa. No sábado (1º) show do pernambucano Lula Queiroga e depois festa com o DJ Guga de Castro. E no domingo (02), encerrando o evento no palco do pátio, show da banda Dona Zefinha.

SERVIÇO
DEVERCIDADE 2007 - De 27 de novembro a 02 de dezembro no entorno do Mercado dos Pinhões.
Horário de visitação das exposições: das 17h a meia-noite.
Entrada: GRÁTIS

Participantes
Alex Costa
Alexandre Veras e Milenna Travassos
Ângela Moraes
Anna Gardennya Linard
Annádia Leite
Beatriz Furtado
Beatriz Sabóia
Beatriz Pontes
Ben-Hur Lima de Oliveira
Bia Fiúza
Camila Feliz da Silva
Carlinhos Alcântara
Celso Oliveira
Chico Gadelha
Chico Gomes
Chico Monteiro
Diogo Braga
Elaine Castro
Evelin Lima
Elian Machado
Francesca Nocivelli
Fabrício Fava
Fátima Rocha Perini
Fernando Jorge da Cunha Silva
Frederico Teixeira
Fill
Seu Alves Sapateiro
Gilvan Fausto de Sousa Filho
Gina Emanuela
Gustavo Pellizzon
Giovanni Santos
Henrique Torres
Igor Câmara
Danilo Cavalcante
Jardel Kennedy
P. Soares
José Guedes
José Guilherme Gama
Júlia Braga
Julyana Mourão Monte
Karen Anne Costa Pedregal
Lia de Paula
Marcus Vale
Natalia Kataoka
Nelson Bezerra
Nicolas Gondim
Nivando Bezerra
Nívia Uchôa
Patrícia Araújo
Paulo Gutemberg
Rafaela Nunes Eleutério
Raimundo Ferreira Filho
Rubens Venâncio
Salomão Santana
Sérgio Carvalho
Sheila Oliveira
Thiago Gaspar
Titus Rield
Ulisses Narciso
Wilton Matos
Zé Albano
Zé Tarcísio


Coletiva
Clica Maravilha
Fortaleza Na Lata
Gota de Luz
Grupo Nume
Grupo Ácido

Autor: Jornal O Povo - 23/11/2207

sábado, 17 de novembro de 2007

Moda refletida e idealizada

Fotógrafos, estilistas e stylists movimentam o mercado de moda em debate caloroso, realizado em evento planejado para discutir o segmento na sociedade contemporânea. Confira, agora, o que aconteceu nos últimos dias do Pense Moda, ocorrido na capital paulista

Aconteceu, de 5 a 9 de novembro, em São Paulo, em uma sala Cinemark do Shopping Iguatemi, o primeiro Pense Moda. Na última edição do Jornal da Comunidade, os leitores puderam saber tudo o que rolou nos dois primeiros dias de evento. Veja, agora, o complemento da cobertura realizada in loco, com os acontecimentos dos últimos dias.

O Pense Moda reuniu fotógrafos, estilistas, stylists, produtores, editores e estudantes de todo o país, trazendo também profissionais de Londres, com o apoio do British Council, para enriquecer os debates.

O objetivo do Pense Moda, como afirmou a jornalista Camila Yahn, idealizadora e realizadora do evento, é o de reunir estudantes e profissionais do segmento para que se possa pensar em novas possibilidades para o crescimento da moda no país. Um encontro para motivar parcerias e acabar com competições pouco produtivas.

“É uma satisfação enorme saber que finalmente aconteceu o Pense Moda. Foram dois anos de planejamento, conversando com várias pessoas envolvidas com a moda. O desejo de todos era o mesmo. Esse evento tem como meta trazer de volta os diálogos e parcerias. As coisas estão muito individualizadas. Só que é muito mais fácil fazer acontecer quando as pessoas estão juntas. Adianto que entre janeiro e fevereiro já teremos novidades sobre a próxima edição, como os nomes dos próximos convidados”, revelou Camila.

Hugo Scott
Na manhã da quarta-feira 7, a primeira palestra foi a de Hugo Scott. Ele veio de Londres para compartilhar os conhecimentos que adquiriu ao trabalhar para o Dover Street Market e, atualmente, como diretor da Marc Jacobs para o Reino Unido.

DSM tem a concepção e direção de Rei Kawakubo e trabalha com o princípio de reunir, em uma única atmosfera, o trabalho de diversos criadores, sejam talentos amplamente reconhecidos ou recém-descobertos. A proposta é que cada estilista coordene seu espaço como quiser, criando cenários livres, para que as marcas tenham sua filosofia bem representada.

“Lá, tive a oportunidade de conhecer pessoas muito especiais. Trabalhei com grandes e jovens designers. Organizava tudo e acompanhava o trabalho deles. Esse formato de loja funciona muito bem lá e o mais importante é que, apesar da diversidade e de alguns imprevistos, a visão inicial do projeto não foi perdida”, afirma.

Sempre entrando em contato com diversos estilistas e convidando marcas para fazerem parte da loja, Scott também teve de aprender a lidar com o não. “Balenciaga disse não uma vez. O mundo da moda tem muitas políticas e, no momento, a marca preferiu não aceitar a proposta. Tudo bem”, revela. Scott comenta que, por lá, as marcas de luxo são vendidas de forma diferenciada. “O DSM mudou a forma como pessoas fazem compras, é uma nova experiência. Muitas coisas podem até ser caras, mas elas só são encontradas lá. O que está de acordo com o mercado, já que cada vez mais as pessoas buscam por coisas únicas”, esclarece.

Depois de tirar algumas dúvidas sobre as empresas onde trabalhou e mostrar dezenas de fotos que revelam como funciona a DSM, a questão que fica é: qual a maior contribuição que Scott deixou para o Pense Moda? Bonito, simpático e excelente orador, fez com que muitos prestassem atenção apenas em sua beleza e quisessem saber se ele está solteiro ou não.

Entretanto, talvez se deva pensar com maior atenção no formato de mega mercados multimarcas, com cantos específicos de diversos estilistas. Será que essas lojas de departamento de luxo seriam bem aceitas no Brasil? Existe mercado para isso em território nacional?

Talvez seriam, sim, uma ótima opção para quem adora fazer compras e ama a experiência de mergulhar fundo em diversos universos da moda, sem perder muito tempo. Melhor ainda para grifes estrangeiras que queiram testar o mercado por aqui. Excelente para estilistas que estão se lançando no mercado se tornarem conhecidos. Ótimo também para marcas brasileiras que queiram ampliar a sua rede de distribuição de produtos.

Fotógrafos em chamas
Ainda no dia 7, finalmente, o Pense Moda mostrou com todas as letras a que veio. Foi na mesa redonda com grandes nomes da fotografia de moda brasileira que o debate pegou fogo e se lançaram grandes questões sobre os caminhos que o setor toma na sociedade contemporânea. Bob Wolfenson, Daniel Klajmic, Mario Daloia e André Passos compuseram a banca, tendo Ricardo Van Steen como mediador.

A primeira questão levantada por Ricardo foi quanto ao padrão de beleza mostrado pelas fotografias de moda. Onde estão as referências de beleza brasileira? Bob responde a questão dizendo que fotografia feita por um brasileiro é fotografia brasileira.

“A modelo é brasileira, a luz é brasileira, o cenário é brasileiro, a revista é brasileira, então a fotografia também é brasileira. Agora temos que levar em consideração que moda ainda é para a elite, o pensamento de moda é da elite. A moda está em um processo muito embrionário. Não acho que fazer uma foto caricatural do que é brasileiro seja o caminho. Não podemos ceder à idéia de que para ser brasileiro tem que ser caricato. O Brasil é multimídia”, posiciona-se.

Quando está em pauta o limite entre releitura e cópia de um trabalho, a temperatura sobe. Mário fala primeiro: “Depende do talento de quem faz”. Em seguida, Daniel afirma: “Por enquanto, ainda estamos fadados a usar referências. Quanto às editoras e leitores, estão preparados para lidar com o diferente? Se as pessoas vêem um trabalho e acham parecido com o que está na Vogue América, eles vão achar legal”.

E André pontua de forma ainda mais direta: “Chegam com uma revista gringa na mão e falam exatamente assim: ‘Vamos fazer isso?’ Já minha experiência lá fora foi diferente; eles chegavam e me perguntavam se tinha visto tal filme; pediam para eu assistir, pois, de lá, poderia sair alguma idéia interessante”.

Em seguida, o debate critica a postura dos editores de moda. “Vejo os editores de revistas como missionários. Ouço muito eles dizerem que alguma coisa não pode ser feita porque os leitores não vão entender. Mas são eles que têm o papel de ir criando uma educação de moda entre seus leitores. A minha sugestão é: Se uma revista tem 40 páginas destinadas a editorias de moda, que 30 sejam feitas desta forma. As outras 10 podem ser ocupadas por imagens inovadoras. Aos poucos, os leitores estariam sendo preparados para um material diferente”, fala Bob.

Outras questões surgiram e ecoaram pelas redações de várias publicações de moda do país. O que os editores podem fazer para dar maior liberdade de atuação aos seus fotógrafos? O fotógrafo só deve fazer os trabalhos que tenham a ver com ele? Como sobreviver comercialmente, se não se adaptar às exigências dos veículos para os quais prestam serviços? Fotografia é arte?

Um visionário
A manhã de palestras do dia 8 teve início com a manifestação do ponto de vista de Paulo Borges, diretor artístico da São Paulo Fashion Week. Com discurso direto, o visionário da moda mostrou seus pontos de vista.

“Hoje, o Brasil tem um pensamento de moda alicerçado em um conceito mais abrangente do que quando comecei a trabalhar com moda. Atualmente, o segmento é visto como criação, design e mercado, uma grande evolução, já que antes era tido apenas como vestuário. Entretanto, o Brasil ainda não está preparado para lidar com isso de forma plena. Por isso, cada evento tem uma meta e é preciso ter visão de futuro para não ser engolido pela própria ansiedade ou pelo coletivo”, inicia.

Paulo continua dizendo que ainda não há um planejamento sistêmico que pense o mercado de moda a longo prazo. “Ninguém mais atua sozinho e as pessoas precisam entender isso. O processo de construção é coletivo e, para que esse trabalho coletivo funcione, você precisa ter processos muito claros”.Ele diz que a moda já passou a ser vista de forma séria e profissional, o que tem atraído grupos de investimentos para o setor. A compra de algumas empresas gera negociações estratégicas positivas. Sinal de que as pessoas já entendem que moda é mercado e não apenas encontro social.

Outro aspecto que aqueceu a palestra foi quando questionaram o atual formato da semana de moda, principalmente no que tange aos conceitos de datas para lançar as coleções primavera-verão e outono-inverno.

“Não existem mais tendências, esse é um termo que ficou velho. E coleção? As pessoas fazem até 10 coleções por ano. Acabaram as referências sazonais. Até mesmo porque, com materiais tão tecnológicos, um tecido fininho e leve pode ter capacidade altamente térmica, o que desconstrói a tradicional imagem de moda inverno, com roupas volumosas e pesadas. A grande questão hoje é saber para quem você faz roupa”.

Paulo Borges também fala diretamente com as faculdades de moda e milhares de formados em moda que são jogados no mercado anualmente. Com qual foco essas pessoas estão iniciando suas carreiras? Segundo ele, se todos continuarem com o desejo de se tornarem estilistas, realmente não haverá emprego para todo mundo. O mercado é muito maior e oferece possibilidades de atuação mais diversificadas.

Para os empresários, a grande questão foi outra. “Eu não entendo como em pleno janeiro, alto verão, os comerciantes já estão liquidando todas as roupas de verão. Justamente no momento em que as pessoas viajam, querem se divertir e estão dispostas a comprar, os preços caem. As pessoas esquecem que o verão é a estação de maior apelo comercial. Isso reflete um mercado com muita falta de estratégia”, enfatiza.

Em um país que ainda padece de alto poder aquisitivo e alta dificuldade em aplicar sua reconhecida criatividade em planejamento de mercado, a moda ainda engatinha. Fica o medo do domínio do mercado por chineses e indianos com preços baixos, enquanto compradores estrangeirosainda questionam porque os brasileiros não conseguem entregar os pedidos em dia.

Sentado na platéia, Tufi Duek manifestou sua opinião: “Precisamos parar de achar que o governo tem de ajudar a gente. Temos que parar de ter pena do segmento. O Brasil tem que ser reconhecido por alguma coisa e descobrir como enfrentar o mercado sem precisar do outro. A gente tem que se preocupar com a gente, o mundo é desse jeito. Quero saber qual é a saída criativa para essa situação! A China é reconhecida pelo preço; Londres, pela criatividade; Estados Unidos, pelo mercado; a Itália, pela alfaiataria; e o Brasil? O Brasil vai ser desejado e reconhecido por quê?”. Fica a reflexão.

Autor: Beatriz de Oliveira - moda@jornaldacomunidade.com.br
Fonte: ComuniWEB

domingo, 4 de novembro de 2007

A humildade do click venceu a arrogância do coturno

Natal (RN) - Se fizesse o tipo presunçoso, desses que desdenham da notícia, ainda que ela lhe atravesse o caminho, Eduardo Maia diria ter acordado na manhã daquele sábado com a idéia fixa: iria para a rua fazer a fotografia que lhe daria o prêmio, porque antes desse negócio de inspiração e expiração ele era o tal e "acharia" a foto quando quisesse. Mas tudo se deu de forma bem diferente. Ele amanheceu naquela sábado, dia 9 de dezembro de 2006, para cumprir mais um plantão, como reza a regra - rigorosa, diga-se - do rodízio na redação. Bolsa a tiracolo, tomou o ônibus na altura do conjunto Pajuçara, entregou o vale-transporte ao cobrador e escolheu um lugar junto à janela. Para ver a vida passar e sentir o vento bater na cara. A rotina se repete ao longo dos últimos 21 anos, tempo de profissão que se mistura ao de dedicação ao jornal. Naquele dia ele teria mais uma prova de algo que é caro à profissão, mas aos presunçosos custa muito pouco: em jornalismo, muitas vezes não basta querer, é preciso, além da técnica, estar no lugar certo e na hora certa.

Dentro do ônibus que o conduzia ao trabalho, onde via a vida passar e sentia o vento lhe soprar o rosto, Eduardo ainda não sabia que a manhã daquele sábado reservaria surpresas. Há cerca de dois anos alçado à condição de editor, ele iria para a rua naquele dia, excepcionalmente, fazer a ronda policial. Cobriria a falta de um colega, adoentado. Se a vida de repórter não fosse tão corrida, ele até poderia se permitir pensar no tempo em que começou na profissão: meninote de 16 anos, acostumado a fazer somente festas de aniversário para o estúdio de um amigo, foi levado para o jornal a fim de aprender. Deram-lhe na ocasião um "osso". Hoje, mais experiente, diz que em vez do osso ganhou uma faculdade, a da rua, do aprendizado na marra. Estreou em grande estilo; trabalharia da meia-noite às 6h cobrindo a área policial, um dos carros-chefe do Diário de Natal naquela época, meados dos anos 80. A seu lado, uma lenda do jornalismo policial daquele tempo, o quase onipresente Pepe dos Santos.

Mas como a vida de repórter é sempre corrida e nem sempre dá para ficar lembrando do passado, Eduardo chegou logo ao jornal, arregaçou as mangas e reviveu, na prática, naquela manhã especialíssima de sábado o início da profissão. Fez a ronda policial que lhe cabia e já voltava para a redação, sentindo o mesmo vento familiar lhe soprar o rosto e vendo a vida passar pela janela do carro do jornal, quando deu-se, então, o instante. De repente, por volta das 11h, o tempo rodou num instante, como na música, e parou ali, na altura do posto fiscal de Igapó, no meio de uma ação policial que parecia contornada: cinco policiais militares, um deles com a arma na mão, cercando três rapazes, todos no chão e já imobilizados, enquanto o PM que aparentemente chefiava a operação se preparava para pisar as costas de um dos detidos, de coturno grosso e tudo o mais. Dói só imaginar a força com que aquelas botas pisaram as costas daquele sujeito, entregue e inerte.

É em momentos assim, em instantes curtíssimos como esse, que se difere o presunçoso, aqueles que bocejam diante da notícia e muitas vezes a deixam passar, do profissional que sabe: um flagrante não tem preço. Foi neste ponto "G" da inspiração jornalística, poucos segundos, que Eduardo Maia, um vigilante da notícia, sacou de sua Nikon D-70 digital, com lente 18 por 70mm, e disparou uma, duas, três, quatro, várias vezes. Até alcançar o grau de perfeição que considerou ideal. A reação dele ao que viu não durou mais do que vinte segundos, mais de dez disparos na máquina. É que para profissionais como Eduardo, uma boa fotografia não tem preço. Naqueles segundos iluminados, mal sabia ele, estaria fazendo história

No caso de Eduardo Maia, a partir dali aquele sábado que seria mais um entre tantos em que se deslocou de casa para acompanhar o final da edição do jornal de domingo - e fazer, caso necessário, uma ou outra foto para ilustrar as poucas páginas em fase de fechamento - tornou-se inesquecível. E dele resultariam outras datas igualmente importantes. O flagrante acabou estampado na capa da edição de O Poti do dia seguinte, 10 de dezembro de 2006, e gerou enorme repercussão.

Na semana passada, dia 25 de outubro mais precisamente, o coroamento disso tudo: numa cerimônia que lotou os 800 lugares do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, o trabalho que ao fotógrafo, a princípio, pareceu rotineiro foi aclamado como a melhor fotografia na área de Direitos Humanos produzida para o 29º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, o mais importante do país em seu segmento e atrás somente do Prêmio Esso entre aqueles de maior prestígio no jornalismo brasileiro.

A imagem de Eduardo Maia bateu a de outros 84 concorrentes, dos maiores jornais do país. Para dar idéia da qualidade do trabalho deste potiguar nascido em São Paulo do Potengi há 37 anos, uma fotografia retratando a guerra do tráfico de drogas no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro e até um livro inteiro de Fotojornalismo, chamado Retratos de Paz, de Leandro Taques, ficaram para trás na disputa com o flagrante de Igapó, feito em Natal.

Na hora de cravar o voto, a comissão julgadora não pensou duas vezes. O professor de fotografia do curso de Jornalismo da PUC-SP, Douglas Mansur; o diretor da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de São Paulo, Nivaldo Silva; e o repórter fotográfico free lancer Eugênio Goulart, apontou a foto de Eduardo como a mais completa. Ainda para sentir o peso dado ao Vladimir Herzog: a cerimônia foi apresentada pelos jornalistas Heródoto Barbeiro e Mônica Waldvogel. Foram homenageados, além dos premiados nas várias categorias, o consagrado jornalista Audálio Dantas, vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa, o secretário especial de Direitos Humanos, Paulo Vannucchi, o artista Elifas Andreato, criador do troféu, o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, por sua atuação em defesa dos presos políticos durante a ditadura, o rabino Henri Sobel e o jornalista Caco Barcellos. Será que estava bem acompanhado este potiguar, casado, pai de dois filhos, americano roxo e flamenguista?

A apreensão diante da premiação e a expectativa da entrega não mudaram em nada a vida de Eduardo, salvo a correria para comprar um paletó e cuidar das burocracias do embarque. Para acompanhar tudo, levou a mulher - a parceira com quem divide, além das dificuldades da vida, as sessões dominicais do Encontro de Casais com Cristo e do Segue-me, movimentos da igreja católica. Ainda passou alguns dias na Paulicéia Desvairada, curtindo a ressaca da festa. De volta ao trabalho, mantém a vida de sempre - e não poderia ser diferente: acordar todo dia, arrumar-se apressado e tomar o ônibus que o levará ao trabalho. De preferência, buscando um lugar na janela, onde possa ver a vida passar rápido e sentir o vento lhe bater no rosto, tranqüilo e sereno, mas de olhos bem abertos: algo pode acontecer e profissionais como Eduardo não bocejam diante da notícia e nunca a deixam escapar.

sábado, 3 de novembro de 2007

Fotógrafos discutem preservação de imagem digital

Por Roberta Tojal

Campinas (SP) - Desde sua invenção, a fotografia tem sido utilizada como instrumento para a memória: um ínfimo recorte do tempo e do espaço que, registrado através da luz, poderá ser perpetuado por séculos. Porém, se não preservarmos essa imagem ela desaparecerá, como efêmera que é. A fotografia digital também se mostra frágil, colocando novos desafios para a preservação. Para muitos fotógrafos, a película fotográfica ainda é o meio mais seguro de conservação de uma imagem.

Essa foi uma das questões tratadas no 1º Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo, durante o seminário sobre a preservação da produção contemporânea, realizado no início de outubro, no auditório da sede do Itaú Cultural. Na mesa estavam presentes várias autoridades no assunto como Sandra Baruki, coordenadora do Centro de Conservação e Preservação Fotográfica (CCPF) da Funarte, Patrícia Di Filippi, coordenadora do laboratório de restauro da Cinemateca de São Paulo, Leandro Melo, professor do Centro Universitário Senac e Millard Schisler, representante brasileiro no Rochester Institute of Technology e que, por 13 anos, foi diretor da George Eastman House, ambas instituições dos Estados Unidos.

Como fazer para que milhões de imagens produzidas todos os anos não se percam? Como protegê-las da ação do tempo e garantir que elas continuem a comunicar ao longo de outras gerações? Desde o início da fotografia digital esse debate se tornou fundamental dentro dos centros de documentação e museus e, agora, começa a ganhar lugar também nas maletas fotográficas e nos arquivos pessoais de todos aqueles que adoram fotografar. Durante anos a chamada síndrome do vinagre (leia mais no final da matéria) foi a grande vilã que deteriorou quilômetros de rolos de filmes fotográficos, com seus fungos corroendo a história da vida privada de famílias em todo o globo. Porém, além da corrosão, existe um problema tecnológico: as indústrias estão produzindo cada vez menos papel fotográfico.“Além da restauração, existe a questão do material. Se uma imagem, hoje, estraga, muitas vezes você não pode fazer outra, pois não existe mais o papel. E a película fotográfica ainda é o meio mais seguro de conservação de uma imagem”, afirma Sandra Baruki, ao tratar da dificuldade de preservar os milhares de fotogramas que fazem parte de acervos públicos e privados. Baruki ressalta, ainda, a incerteza quanto ao tempo de vida dos suportes tecnológicos que, voltados para o mercado, podem desaparecer rapidamente das prateleiras das lojas fotográficas, deixando milhões de arquivos presos em um formato incompatível.

Essa preocupação também esteve presente nas intervenções de Millard Schisler e de Patrícia Di Filippi. Ambos lembraram a necessidade da preservação preventiva: que o próprio fotógrafo selecione e organize periodicamente suas imagens, mantendo-as atualizadas com as mudanças tecnológicas. “O que se guarda acaba tornando-se a nossa história e o que não é guardado se perde e é apagado de nossas memórias”, alerta Millard, para quem é importante que se tenha em mente que algo sempre se perderá, e que por isso precisamos escolher o que queremos guardar, principalmente diante da possibilidade, com a fotografia digital, de se produzir grande quantidade de imagens. Por isso, seria fundamental uma seleção periódica, para impedir que aquilo que é realmente importante se perca junto com todo o resto. Seguindo este raciocínio, Schisler e DiFilippi ressaltam a questão da velocidade com que novas tecnologias são colocadas e retiradas no mercado e como esta rapidez é um dos principais fatores de risco para a perda da memória fotográfica. Para evitá-la, é preciso sempre migrar os arquivos para a tecnologia mais recente, evitando que eles fiquem presos em um suporte obsoleto (como aconteceu com os disquetes).

Para Leandro Melo, a preservação preventiva é fundamental para minimizar os fatores da degradação do material. Mas, lembra ele, a questão não é apenas o quê guardar, mas como guardar. Essa foi outra questão discutida durante o seminário: a extensão dos arquivos. O padrão utilizado e recomendado pelos centros de memória ainda é o ponto tiff. A idéia proposta foi a de se salvar imagens com duas resoluções diferentes, uma mais baixa - para facilitar o acesso - e uma alta, destinada a um arquivo permanente. Ponto comum na fala de todos os palestrantes, portanto, é a preocupação com a vida dos arquivos: cada fotógrafo deve criar um sistema de catalogação de suas imagens que permita sempre revê-las, pois apenas com a revisitação é que a memória permanece viva.

A sugestão feita por Schisler é a de que cada amante da fotografia faça um livro por ano, escolhendo as fotografias que mais lhe significam: “monte, escreva legendas, dê um nome e mande encadernar com capa dura. Pronto: você terá uma prática forma de guardar viva suas memórias”.

Síndrome do vinagre

Esse nome lhe é atribuído pelo forte odor de vinagre gerado pela reprodução de fungos nas películas fotográficas de acetato. O processo ocorre por causa do acondicionamento inadequado. Ele pode expor a película à umidade e às altas temperaturas, favorecendo a proliferação de fungos devido ao ácido acético residual da revelação, que permanece na película, e se liga com os cristais de prata do filme fotográfico. Assim, partes da imagem terminam cobertas por esse fungo e partes são corroídas por ele.