sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Fotojornalismo cearense

O Instituto de Fotografia (Ifoto) abre hoje, às 19 horas, em sua sede, na Praia de Iracema, a exposição “Fotojornalismo no Ceará”, com trabalhos de 23 repórteres fotográficos que atuam no Estado

Fortaleza (CE) - As fotos da exposição foram escolhidas pelos próprios autores. São 23 repórteres fotográficos dos jornais Diário do Nordeste e O Povo. Além da exposição, vai ser realizado, a partir de hoje, uma série de encontros para se discutir o fotojornalismo produzido hoje no Ceará e no Brasil. A mostra é só a face mais visível de um projeto maior que vem sendo desenvolvido pelo Ifoto. A idéia é abrir um espaço para se discutir o que se produz no Fotojornalismo cearense hoje.


O Diário do Nordeste será representado na exposição pelos fotógrafos Cid Barbosa, Daniel Roman, Denise Mustafa, Fábio Lima, Gustavo Pellizzon, João Luís, José Leomar, Kid Júnior, Kiko Silva, Miguel Portela, Neysla Rocha, Silvana Tarelho, Thiago Gaspar e Tuno Vieira. Os representantes do jornal O Povo são Alex Costa, Dário Gabriel, Edimar Soares, Evilázio Bezerra, Francisco Fontenele, Mauri Melo, Natinho Rodrigues, Sebastião Bisneto e Thiago Gaspar.


A programação do evento inclui a promoção de um debate com os fotógrafos e editores de fotografia dos dois jornais para uma reflexão sobre essa produção. Para este evento foi convidado Evandro Teixeira, um dos mais importantes fotógrafos brasileiros. Ele faz palestra sobre os desafios de sua profissão e sobre o cenário do fortajornalismo no país. Evandro Teixeira dá palestra no sábado, às 19 horas, no auditório do Dragão do Mar.


Entre os trabalhos mais recentes de Evandro Nogueira está um projeto que se chama “68 destinos” (www.evandroteixeira.net/68destinos/home.htm), onde, a partir de uma única foto sua, produzida durante a passeata dos cem mil - na candelária, no Rio, em 1968 -, ele, 40 anos depois, procura essas mesmas pessoas retratadas na foto e descobre o que aconteceu com elas nesse período e o que fazem hoje. Este projeto vai se transformar num livro que está sendo finalizado e que será lançado em breve. No evento do Ifoto fotógrafo vai falar, principalmente, sobre seu projeto.

Vitrine da fotografia

O Ifoto, fundado há quatro anos na cidade de Fortaleza, é uma associação sem fins lucrativos que tem como objetivo desenvolver, promover e produzir programas e ações para o estímulo à produção, valorização e difusão da Fotografia no Ceará. Dentro das ações desenvolvidas pelo Instituto está a reflexão sobre as técnicas e a estética da fotografia produzida hoje.

Tendo em vista esta discussão, o Ifoto promove, nos próximos três meses (setembro, outubro e novembro), exposições e seminários para se pensar três áreas da fotografia no Ceará: fotojornalismo, fotografia publicitária e fotografia contemporânea. Na programação sobre fotojornalismo, está prevista uma mesa redonda com os fotógrafos dos jornais Diário do Nordeste e O Povo, no dia dois de outubro, e uma mesa redonda com os editores dos dois jornais no dia nove de outubro. Os eventos serão realizados na sede do Ifoto.

Serviço
Abertura da exposição ´Fotojornalismo no Ceará´, hoje, às 19 horas, na sede do Ifoto (Rua Gonçalves Lêdo, 307, Praia de Iracema - Fortaleza-CE). As visitas podem ser feitas de 14 às 19 horas. Informações: (85) 3254.6385.
Autor: Jornal Diário do Nordeste (28/09/2007)

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

"A fotografia por vários ângulos" - Entrevista com Simonetta Persichetti


Nascida em Roma, Simonetta Persichetti é jornalista, mestre em Comunicação e Artes e doutora em Psicologia Social. Escreve sobre fotografia há mais de 20 anos.
Ao longo de sua carreira Simonetta colaborou com revistas como Íris Foto e Paparazzi. Publicou dois livros: Imagens da Fotografia Brasileira 1, em 1997 e, Imagens da Fotografia Brasileira 2, em 2000. O primeiro livro recebeu o Prêmio Jabuti 1999, na categoria Reportagem. Durante seis anos (1996-2001) escreveu sobre fotografia para o jornal Estado de S.Paulo. Foi também editora de conteúdo do FOTOSITE, portal de fotografia, e editora de texto da revista REF, da Abrafoto (Associação Brasileira dos Fotógrafos de Publicidade). Foi professora de Teoria da Comunicação e de História da Fotografia na Faculdade de Comunicação e Artes do Senac, Bacharelado em Fotografia, além de coordenar o curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Fotografia, na mesma Instituição.Foi ainda professora de Semiótica e Estética da Imagem na pós-graduação Lato Sensu em Fotografia da UEL (Universidade Estadual de Londrina). Atualmente ministra cursos de História da Fotografia no MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo. Juntamente ao professor e fotógrafo Thales Trigo, coordena e edita, desde 2003, a Coleção Senac de Fotografia, publicada pela Editora Senac, São Paulo.É integrante do Conselho Editorial da Revista “Discursos Fotográficos” do Curso de Especialização em Fotografia da UEL (Universidade Estadual de Londrina).Com toda essa experiência acadêmica e de mercado, Editor&Arte quis saber a opinião da profissional sobre a fotografia atual, as novas tecnologias, a interpretação de uma imagem, além de questões envolvendo os “dois lados do balcão” e como esses mundos (mercado e acadêmico) convivem.

Com que idade e em que contexto decidiu seguir carreira em fotografia?
Na verdade eu não decidi seguir a carreira de fotografia, ela me escolheu. Eu cursava jornalismo e queria ser, como muitos, correspondente internacional.Fui estudar fotografia na Escala Imagem-Ação em São Paulo, para ter mais uma ferramenta de trabalho. Quando me formei em jornalismo, conheci o fotógrafo Sérgio Sade que, na época, era editor de fotografia da Veja. Isso foi em 1979. Foi ele que me aconselhou a escrever sobre fotografia, uma área e um assunto pouco explorados na época. Quase não havia críticos de fotografia no Brasil. Comecei a escrever para ÍrisFoto, fazendo perfis de fotógrafos e adorei conhecer este novo mundo. Achei bem interessante entender como as pessoas se comunicavam além da palavra. Sou e sempre fui jornalista. Fotografo bastante, adoro fotografar, mas não sou e nem consigo me considerar fotógrafa.

Você acha importante cursar uma faculdade de fotografia?
Eu sou favorável ao estudo, à formação venha ela de onde vier. Pode ser até a não formal. Mas acredito e defendo que estudo nunca atrapalha, só ajuda. É claro que você não precisa fazer uma faculdade de fotografia para ser fotógrafo, assim como não precisa fazer uma faculdade de letras para ser escritor, ou artes plásticas para ser pintor. Mas acho faculdade fundamental. Lá os alunos têm um espaço para discutir, aprender com os colegas, experimentar, errar e não ser cobra­do por isso. A faculdade é o encontro do conhecimento organizado. Por isso acho importante.

Acha importante o diploma de jornalista?
Olha, esta é uma questão complicada. Jornalismo é uma técnica. Eu realmente acho fundamental a faculdade, estudar, aprender e continuar estudando mesmo depois de formado. Acho importante a pessoa entender o que é uma matéria jornalística, o que é fazer ou escrever para um jornal ou para uma revista. Acho que o relevante seria uma especialização em jornalismo, e não uma faculdade.

Como o mercado de fotografia trata a necessidade do diploma e outras questões acadêmicas?
Como o mercado fotográfico é na sua maioria formado por auto­didatas, no começo muitos criticaram e muitos apoiaram. Não é necessário ter um diploma em fotografia para ser fotógrafo. Acho toda obrigatoriedade, especialmente nessas áreas, burra. Mas reitero, acho importante estudar, ter a troca. Os alunos que saem da faculdade de fotografia têm um referencial de equipamento, história da fotografia, técnica, laboratório. Vão amadurecer na prática, no dia-a-dia, trabalhando, mas não vão precisar “reinventar a roda”, já terão a base.Além de fotografar e ser crítica de fotografia, você é formada em jornalismo. Como essa dupla formação auxilia nos dois campos?No meu caso só ajudou. Quando entrevisto os fotógrafos sei do que eles estão falando. Sei a quem eles se referem quando falam de algum fotógrafo ou de algum momento da fotografia. Então, no meu caso só acrescentou, nunca atrapalhou.

Gosta de se ver nas fotos, tem muitas fotos de família, amigos, fotos de lembrança?
Detesto. Como todo mundo, acho difícil me encontrar nas fotografias. Algumas pessoas fizeram fotos minhas que eu adorei. Mas também depende do momento. Em alguns momentos gosto muito.Coleciono fotos da minha família, tanto materna quanto paterna. Sou cercada de presenças. Inclusive tenho em meu escritório, penduradas nas paredes, fotos dos meus bisavôs, dos meus avôs, etc. Gosto de pensar que eles me inspiram, que minhas raízes estão neles. De alguma ma­neira me sinto pro­tegida por eles. Guardo também muitas fotos das minhas viagens pelo mundo. Eu adoro fotografia. Gosto de ver, não me canso nunca.Você gosta mais de fotos cor ou P&B? Por quê?Independe. O que me motiva é a fotografia. Eu adoro o Miguel Rio Branco e ele fotografa cor, assim como o Luiz Braga. Mas também gosto das imagens do Tiago Santana, da Paula Sampaio, da Elza Lima, do Luiz Carlos Felizardo que fotografavam em PB.

Prefere fotografar pessoas ou paisagens?
Isso também depende. Como não sou profissional e fotografo mais nas minhas férias, as paisagens acabam sendo privilegiadas. Gosto muito da fotografia de rua, de captar instantes e de fotografar também as pessoas.

Que máquina gosta de usar? Tem alguma “de estimação”?
Minha máquina de estimação é a primeira que eu tive e que ganhei em 1979. É uma Nikon FM, totalmente manual. Aprendi a fotografar com ela e é a que viaja comigo sempre.

Atualmente você está se dedicando mais ao mercado de trabalho ou a dar aulas?
Praticamente só dou aulas agora no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) e na pós-graduação em fotografia da UEL em Londrina (Universidade Estadual de Londrina). Portanto estou mais voltada para o jornalismo como mercado. Além disso, juntamente com o Thales Trigo, sou organizadora da Coleção Senac de Fotografia. Já temos 10 volumes publicados e o 11 e 12 já foram entregues na editora. É um trabalho que gosto muito.

Como concilia as duas coisas em sua rotina?
Pode parecer bobagem o que estou te dizendo, mas é fácil, visto que tenho a sorte de trabalhar com o que escolhi, o que quero e o que gosto. Tudo envolve a fotografia.Se estamos na dita “sociedade da imagem”, o que a torna banalizada, como fazer para destacar uma imagem?Acho que o que torna banal uma fotografia é a preguiça de quem a faz, de quem a edita e de quem a publica. O problema não é fazer muitas imagens, mas sim como elas são feitas e usadas. Hoje em dia publica-se sempre a mesma foto. O que sai do clichê já se destaca.

Se a maioria das pessoas não sabe interpretar uma imagem é por conta de um fotógrafo despreparado para transmiti-la ou de um espectador despreparado para recebê-la?
As duas coisas. Não somos alfabetizados imageticamente. Muitas vezes tentamos encontrar coisas além do que está na foto, quando a interpretação na maioria das vezes é mais simples do que se imagina. Basta olhar e confiar não no que estamos vendo, mas no que sabemos, no que conhecemos. Deciframos uma imagem com nosso repertório, assim como quem fotografa só fotografa o que conhece, o que sabe. Portanto se você não tem nada a dizer, sua foto é pobre e sua interpretação também.

Se a percepção de uma imagem varia tanto de acordo com a bagagem cultural e experiências do espectador, como fazer uma fotografia transmitir o que o fotógrafo ou o cliente desejam?Vivemos num mundo contextualizado culturalmente, politicamente e economicamente. Devemos estar atentos a estes sinais. Eu gosto de pensar a fotografia como um ato comunicativo. Como em toda comunicação você precisa compartilhar o mesmo código. Se o que você quer não está na foto e você tem que explicá-la, a foto é ruim. A pergunta é sempre a mesma: o que estou fotografando e para quem? Daí a resposta é fácil.

Se o espectador só entende e só aprecia uma imagem que lhe traz algo de familiar, como inovar e surpreender sem se tornar incompreensível?
Exatamente partilhando o mesmo código. Como diz o Cristiano Mascaro, o legal é você tornar visível o invisível. A fotografia deve chamar sua atenção para assuntos cotidianos, para aquelas pequenas coisas que muitas vezes não prestamos atenção.

No artigo “A origem do nosso olhar fotográfico” você cita que nosso modo de enxergar e de fotografar foi totalmente influenciado pelas visões e registros dos europeus do século XIX. Pensando nos dias atuais e levando em conta a globalização, você acredita que essa herança ainda se mantém forte? Ou considera que a tecnologia que favorece a troca de experiências entre as culturas tornou homogênea a percepção do olhar?

Aqui temos duas questões: nosso olhar foi influenciado pela fotografia européia e, portanto, nosso imaginário tem essa formação. Nos sentimos muito confortáveis com o pictorialismo. Claro que hoje essa influência está diluída nas muitas imagens que já vimos. Quanto à tecnologia, acredito que estamos diante de uma transformação da visualidade. Ela nos aponta novos caminhos de representação de mundo. Toda nova tecnologia transforma nosso comportamento, por isso, nossa maneira de enxergar. Ainda não dá para precisar que mudança é essa, mas estamos diante de uma nova postura frente à imagem: tanto na maneira de produzi-la como na maneira de interpretá-la.

Você acha proveitosa ou prejudicial essa globalização do olhar?
Não gosto de colocações maniqueístas. Acho que já que estamos vivendo esta situação, vamos entendê-la e tirar o maior proveito para fazer um trabalho diferenciado. Em seu artigo “O clube do bangue-bangue” você relata a angústia vivida pelo fotógrafo Greg Marinovich ao se valer de momentos de tragédia da vida alheia para ter seu trabalho.

Você já viveu situação semelhante, ainda que não necessariamente em momentos de tragédia, mas já se sentiu invadindo além do limite a vida de outros para ter seu registro, seu trabalho?
Não, na minha fotografia não-profissional nunca aconteceu.

Se uma boa foto depende mais de uma boa imagem do que de técnica ou experiência de quem fotografa, o que é prioritário no curso de fotografia: ensinar a técnica ou ensinar a apurar o olhar? Como se ensina essa apuração do olhar?Como se dá esse “mix” atualmente nos cursos?
Não sei se concordo muito com essa afirmação. Uma boa imagem é o resultado de técnica e experiência e não fruto do acaso ou de um golpe de sorte. Por acaso, ou por sorte, você até pode fazer uma boa imagem, mas não sustentar uma carreira. Um bom fotógrafo antecipa, prevê o que vai acontecer e precisa de domínio técnico para executar rapidamente a imagem. Na fotografia o desenvolvimento da técnica está intimamente ligado ao desenvolvimento da linguagem. Através da técnica você também apura o olhar. Mas acho necessário conhecer história da fotografia e acima de tudo, conhecer bem o trabalho de vários fotógrafos.

Você acha que os alunos de fotografia que se formam estão preparados para o mercado de trabalho?
Eu espero que sim (risos).

Como o lado professora influencia no seu trabalho e como o lado profissional influencia nas suas aulas?
Talvez seja ilusão minha ou prepotência, quem sabe arrogância....mas não me vejo muito diferente quando sou professora de quando estou escrevendo sobre fotografia. Aprendi muito com meus alunos. Muitas vezes eles foram os responsáveis por rever várias idéias ou conceitos já formados. A experiência de aula é fascinante, você cresce. Assim como escrever sobre fotografia. Eu estou sempre estudando, lendo, me informando. Muitas informações, até hoje, são os alunos que trazem para mim. Devo muito a eles.

Você consegue identificar pessoas especiais, que se destacam dentro do curso ou hoje está tudo homogeneizado?
Não tem muito como saber. Nem sempre quem se destaca numa sala de aula é o melhor no mercado e vice-versa. Cada um tem seu tempo, suas vontades.

Você acha que a tecnologia empregada hoje nos equipamentos é responsável por essa homogeneização?
Não. Isso é desculpa. Quando a fotografia surgiu em 1839, ela era uma nova técnica e um pintor francês, Paul Delaroche, saiu às ruas gritando que a pintura estava morta. Que todos podiam produzir imagens, que a arte tinha desaparecido. Hoje temos novos “Pauls Delaroches”. Muito barulho por nada!

Essa era digital ajuda ou atrapalha na qualidade do olhar? (Ela ajuda na técnica, mas não torna a qualidade geral meio nivelada?)
Acho que por enquanto não sabemos bem para onde estamos indo, mas estamos diante de uma nova forma de representação, portanto de inovação e não de banalização. Ao contrário penso que o digital vai arejar essa banalização.

Em relação à imparcialidade do fotojornalismo e lembrando da frase de Lewis Hine “Fotografias não mentem, mas mentirosos fotografam”, que é bárbara, o que você colocaria sobre as seguintes questões: -manipulação da imagem (photoshop e outros programas do tipo ou mesmo o fotojornalista montar a cena)-legendas óbvias que apenas descrevem o que já se vê na imagem-legendas mentirosas
Sobre manipulação eu penso o seguinte: a imagem sempre foi manipulada.Você não precisa mexer na imagem para manipulá-la, basta alterar seu conceito.Em 1839 Hippolite Bayard fez um auto-retrato onde se representava morto como crítica ao governo francês por não ter reconhecido sua paternidade na invenção da fotografia. Portanto essa imagem já era uma manipulação....Temos vários exemplos disso.Todos os governos ditatoriais manipularam imagens. Só que as pessoas não sabiam que isso era possível, hoje sabem e por isso questionam. O que é fantástico!Em relação às legendas óbvias: esse é o analfabetismo visual.A imagem está lá, eu a estou vendo, por isso o texto não tem que explicar, mas acrescentar informação. Já a legenda mentirosa é a pura manipulação da informação.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Fotógrafos de animais

Reportagem exibida pela TV globo no dia 08/12/06 sobre o dia a dia de um fotógrafo de animais.