sábado, 17 de novembro de 2007

Moda refletida e idealizada

Fotógrafos, estilistas e stylists movimentam o mercado de moda em debate caloroso, realizado em evento planejado para discutir o segmento na sociedade contemporânea. Confira, agora, o que aconteceu nos últimos dias do Pense Moda, ocorrido na capital paulista

Aconteceu, de 5 a 9 de novembro, em São Paulo, em uma sala Cinemark do Shopping Iguatemi, o primeiro Pense Moda. Na última edição do Jornal da Comunidade, os leitores puderam saber tudo o que rolou nos dois primeiros dias de evento. Veja, agora, o complemento da cobertura realizada in loco, com os acontecimentos dos últimos dias.

O Pense Moda reuniu fotógrafos, estilistas, stylists, produtores, editores e estudantes de todo o país, trazendo também profissionais de Londres, com o apoio do British Council, para enriquecer os debates.

O objetivo do Pense Moda, como afirmou a jornalista Camila Yahn, idealizadora e realizadora do evento, é o de reunir estudantes e profissionais do segmento para que se possa pensar em novas possibilidades para o crescimento da moda no país. Um encontro para motivar parcerias e acabar com competições pouco produtivas.

“É uma satisfação enorme saber que finalmente aconteceu o Pense Moda. Foram dois anos de planejamento, conversando com várias pessoas envolvidas com a moda. O desejo de todos era o mesmo. Esse evento tem como meta trazer de volta os diálogos e parcerias. As coisas estão muito individualizadas. Só que é muito mais fácil fazer acontecer quando as pessoas estão juntas. Adianto que entre janeiro e fevereiro já teremos novidades sobre a próxima edição, como os nomes dos próximos convidados”, revelou Camila.

Hugo Scott
Na manhã da quarta-feira 7, a primeira palestra foi a de Hugo Scott. Ele veio de Londres para compartilhar os conhecimentos que adquiriu ao trabalhar para o Dover Street Market e, atualmente, como diretor da Marc Jacobs para o Reino Unido.

DSM tem a concepção e direção de Rei Kawakubo e trabalha com o princípio de reunir, em uma única atmosfera, o trabalho de diversos criadores, sejam talentos amplamente reconhecidos ou recém-descobertos. A proposta é que cada estilista coordene seu espaço como quiser, criando cenários livres, para que as marcas tenham sua filosofia bem representada.

“Lá, tive a oportunidade de conhecer pessoas muito especiais. Trabalhei com grandes e jovens designers. Organizava tudo e acompanhava o trabalho deles. Esse formato de loja funciona muito bem lá e o mais importante é que, apesar da diversidade e de alguns imprevistos, a visão inicial do projeto não foi perdida”, afirma.

Sempre entrando em contato com diversos estilistas e convidando marcas para fazerem parte da loja, Scott também teve de aprender a lidar com o não. “Balenciaga disse não uma vez. O mundo da moda tem muitas políticas e, no momento, a marca preferiu não aceitar a proposta. Tudo bem”, revela. Scott comenta que, por lá, as marcas de luxo são vendidas de forma diferenciada. “O DSM mudou a forma como pessoas fazem compras, é uma nova experiência. Muitas coisas podem até ser caras, mas elas só são encontradas lá. O que está de acordo com o mercado, já que cada vez mais as pessoas buscam por coisas únicas”, esclarece.

Depois de tirar algumas dúvidas sobre as empresas onde trabalhou e mostrar dezenas de fotos que revelam como funciona a DSM, a questão que fica é: qual a maior contribuição que Scott deixou para o Pense Moda? Bonito, simpático e excelente orador, fez com que muitos prestassem atenção apenas em sua beleza e quisessem saber se ele está solteiro ou não.

Entretanto, talvez se deva pensar com maior atenção no formato de mega mercados multimarcas, com cantos específicos de diversos estilistas. Será que essas lojas de departamento de luxo seriam bem aceitas no Brasil? Existe mercado para isso em território nacional?

Talvez seriam, sim, uma ótima opção para quem adora fazer compras e ama a experiência de mergulhar fundo em diversos universos da moda, sem perder muito tempo. Melhor ainda para grifes estrangeiras que queiram testar o mercado por aqui. Excelente para estilistas que estão se lançando no mercado se tornarem conhecidos. Ótimo também para marcas brasileiras que queiram ampliar a sua rede de distribuição de produtos.

Fotógrafos em chamas
Ainda no dia 7, finalmente, o Pense Moda mostrou com todas as letras a que veio. Foi na mesa redonda com grandes nomes da fotografia de moda brasileira que o debate pegou fogo e se lançaram grandes questões sobre os caminhos que o setor toma na sociedade contemporânea. Bob Wolfenson, Daniel Klajmic, Mario Daloia e André Passos compuseram a banca, tendo Ricardo Van Steen como mediador.

A primeira questão levantada por Ricardo foi quanto ao padrão de beleza mostrado pelas fotografias de moda. Onde estão as referências de beleza brasileira? Bob responde a questão dizendo que fotografia feita por um brasileiro é fotografia brasileira.

“A modelo é brasileira, a luz é brasileira, o cenário é brasileiro, a revista é brasileira, então a fotografia também é brasileira. Agora temos que levar em consideração que moda ainda é para a elite, o pensamento de moda é da elite. A moda está em um processo muito embrionário. Não acho que fazer uma foto caricatural do que é brasileiro seja o caminho. Não podemos ceder à idéia de que para ser brasileiro tem que ser caricato. O Brasil é multimídia”, posiciona-se.

Quando está em pauta o limite entre releitura e cópia de um trabalho, a temperatura sobe. Mário fala primeiro: “Depende do talento de quem faz”. Em seguida, Daniel afirma: “Por enquanto, ainda estamos fadados a usar referências. Quanto às editoras e leitores, estão preparados para lidar com o diferente? Se as pessoas vêem um trabalho e acham parecido com o que está na Vogue América, eles vão achar legal”.

E André pontua de forma ainda mais direta: “Chegam com uma revista gringa na mão e falam exatamente assim: ‘Vamos fazer isso?’ Já minha experiência lá fora foi diferente; eles chegavam e me perguntavam se tinha visto tal filme; pediam para eu assistir, pois, de lá, poderia sair alguma idéia interessante”.

Em seguida, o debate critica a postura dos editores de moda. “Vejo os editores de revistas como missionários. Ouço muito eles dizerem que alguma coisa não pode ser feita porque os leitores não vão entender. Mas são eles que têm o papel de ir criando uma educação de moda entre seus leitores. A minha sugestão é: Se uma revista tem 40 páginas destinadas a editorias de moda, que 30 sejam feitas desta forma. As outras 10 podem ser ocupadas por imagens inovadoras. Aos poucos, os leitores estariam sendo preparados para um material diferente”, fala Bob.

Outras questões surgiram e ecoaram pelas redações de várias publicações de moda do país. O que os editores podem fazer para dar maior liberdade de atuação aos seus fotógrafos? O fotógrafo só deve fazer os trabalhos que tenham a ver com ele? Como sobreviver comercialmente, se não se adaptar às exigências dos veículos para os quais prestam serviços? Fotografia é arte?

Um visionário
A manhã de palestras do dia 8 teve início com a manifestação do ponto de vista de Paulo Borges, diretor artístico da São Paulo Fashion Week. Com discurso direto, o visionário da moda mostrou seus pontos de vista.

“Hoje, o Brasil tem um pensamento de moda alicerçado em um conceito mais abrangente do que quando comecei a trabalhar com moda. Atualmente, o segmento é visto como criação, design e mercado, uma grande evolução, já que antes era tido apenas como vestuário. Entretanto, o Brasil ainda não está preparado para lidar com isso de forma plena. Por isso, cada evento tem uma meta e é preciso ter visão de futuro para não ser engolido pela própria ansiedade ou pelo coletivo”, inicia.

Paulo continua dizendo que ainda não há um planejamento sistêmico que pense o mercado de moda a longo prazo. “Ninguém mais atua sozinho e as pessoas precisam entender isso. O processo de construção é coletivo e, para que esse trabalho coletivo funcione, você precisa ter processos muito claros”.Ele diz que a moda já passou a ser vista de forma séria e profissional, o que tem atraído grupos de investimentos para o setor. A compra de algumas empresas gera negociações estratégicas positivas. Sinal de que as pessoas já entendem que moda é mercado e não apenas encontro social.

Outro aspecto que aqueceu a palestra foi quando questionaram o atual formato da semana de moda, principalmente no que tange aos conceitos de datas para lançar as coleções primavera-verão e outono-inverno.

“Não existem mais tendências, esse é um termo que ficou velho. E coleção? As pessoas fazem até 10 coleções por ano. Acabaram as referências sazonais. Até mesmo porque, com materiais tão tecnológicos, um tecido fininho e leve pode ter capacidade altamente térmica, o que desconstrói a tradicional imagem de moda inverno, com roupas volumosas e pesadas. A grande questão hoje é saber para quem você faz roupa”.

Paulo Borges também fala diretamente com as faculdades de moda e milhares de formados em moda que são jogados no mercado anualmente. Com qual foco essas pessoas estão iniciando suas carreiras? Segundo ele, se todos continuarem com o desejo de se tornarem estilistas, realmente não haverá emprego para todo mundo. O mercado é muito maior e oferece possibilidades de atuação mais diversificadas.

Para os empresários, a grande questão foi outra. “Eu não entendo como em pleno janeiro, alto verão, os comerciantes já estão liquidando todas as roupas de verão. Justamente no momento em que as pessoas viajam, querem se divertir e estão dispostas a comprar, os preços caem. As pessoas esquecem que o verão é a estação de maior apelo comercial. Isso reflete um mercado com muita falta de estratégia”, enfatiza.

Em um país que ainda padece de alto poder aquisitivo e alta dificuldade em aplicar sua reconhecida criatividade em planejamento de mercado, a moda ainda engatinha. Fica o medo do domínio do mercado por chineses e indianos com preços baixos, enquanto compradores estrangeirosainda questionam porque os brasileiros não conseguem entregar os pedidos em dia.

Sentado na platéia, Tufi Duek manifestou sua opinião: “Precisamos parar de achar que o governo tem de ajudar a gente. Temos que parar de ter pena do segmento. O Brasil tem que ser reconhecido por alguma coisa e descobrir como enfrentar o mercado sem precisar do outro. A gente tem que se preocupar com a gente, o mundo é desse jeito. Quero saber qual é a saída criativa para essa situação! A China é reconhecida pelo preço; Londres, pela criatividade; Estados Unidos, pelo mercado; a Itália, pela alfaiataria; e o Brasil? O Brasil vai ser desejado e reconhecido por quê?”. Fica a reflexão.

Autor: Beatriz de Oliveira - moda@jornaldacomunidade.com.br
Fonte: ComuniWEB

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